ADITAL publica E-book de Morsolin depois da viagem do Papa Francisco no Equador, Bolívia, Paraguai: “O futuro da humanidade está nas mãos dos povos”

Papa a quito julio 2015

Na viagem do Papa Francisco à América Latina um dos momentos de maior significado para o futuro do “apostolado dos excluídos e dos descartados” foi o II Encontro Mundial com os Movimentos Populares.

Recordamos o essencial das palavras do Papa Francisco aos Movimentos Populares e da viagem no Equador, Bolivia, Paraguai nesse E-BOOK “O futuro da humanidade está nas mãos dos povos. Propostas depois da viagem do Papa Francisco no Equador, Bolívia, Paraguai”.

Foi através de um longo, mas claro discurso, sempre muito aplaudido, que o Papa Francisco convocou os membros dos movimentos populares para o reconhecimento da necessidade de mudança, mas também para a ação concreta e decidida para aquilo a que o Santo Padre chamou de “processo de mudança”. Afirmando que os mais humildes e explorados podem fazer muito pelos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais, o Santo Padre, declarou-os como protagonistas e semeadores de mudança: “Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança».

O Papa Francisco apontou algumas tarefas para a mudança, como colocar a economia ao serviço dos povos e unir os povos no caminho da paz e da justiça, tudo isto defendendo a Mãe Terra, pois – diz o Papa – “não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não são universais”, se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais e continuem a destruir a criação”. O Santo Padre declarou que o futuro da humanidade está nas mãos dos povos: “O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança.”

Para conseguir trabalho, teto e terra, é preciso mudar as estruturas globais

O sociólogo Emir Sader afirmou que a visita do papa à América Latina “consolida sua identificação com os governos progressistas do continente. É uma viagem muito importante em que a imagem do papa vai além das declarações, mas com identidades políticas concretas e claramente progressistas”.

Washington Uranga (1), jornalista argentino, Página/12, sinalou que “Parte da mensagem papal por estas latitudes pode ser sintetiza naquilo que Bergoglio definiu como os “3T”: trabalho, teto e terra. Mas para conseguir este propósito, disse Francisco, “é preciso mudar as estruturas”. E para fazer isso, acrescentou, “é preciso unir os povos no caminho da paz e da justiça”. Na mesma linha, sustentou que “é preciso colocar a economia a serviço do povo”, sem permitir que “a política se deixe dominar pela especulação financeira” e deixando de lado qualquer forma de colonialismo. Também não se privou de relativizar a propriedade privada para enaltecer “o destino universal dos bens”. Alguém que conheça a fundo a chamada Doutrina Social da Igreja poderá dizer que nenhum destes conceitos é absolutamente novo no magistério católico. É verdade. O novo, a novidade, é que o Papa extrai estas ideias das bibliotecas pontifícias para expô-las em seus discursos para milhões de pessoas e desta maneira transforma-as em um plano de ação para os católicos e mesmo ultrapassando os limites do seu rebanho. E que incentiva, a próprios e estranhos, a lutar por estes objetivos.

A crítica de Bergoglio ao sistema capitalista financeiro é lapidar e categórica. Não resta espaço para as ambiguidades ou as dúvidas. Seguramente por isso quem antes o aplaudiu – na política, nos meios de comunicação e na própria Igreja – agora procura fazer com que sua mensagem seja o mais discreta possível. Logo chegará o momento em que alguém vai se atrever a dizer que “o Papa está mal assessorado” ou que “está cercado e isso não lhe permite ver a realidade”. Não deveríamos perder de vista o fato de Francisco assinalar os poderes que procuram “apagar” a presença da Igreja “porque a nossa fé é revolucionária” e “desafia a tirania do ídolo do dinheiro”, conclui Uranga.

“É como um divisor de águas. Porque até então o papa falava para o mundo. Agora o papa quer ouvir o mundo. Os papas falavam para os pobres. O papa Francisco chama os movimentos para ouvir os pobres, para ouvir os excluídos”, avalia o bispo Dom Guilherme Werlang (2), presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Segundo a dirigente nacional do MST, Silvia Reis Marquez, o encontro fortaleceu a unidade da classe trabalhadora do campo e da cidade para a conquista e manutenção de seus direitos. “Para o MST e demais organizações foi um momento histórico, pois a declaração do Papa Francisco de que todos têm direito à terra, moradia e trabalho impulsiona nossa luta”, explicou Silvia.

Rosângela Piovezani, do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), afirmou que a luta das mulheres sai fortalecida do encontro.  “O nosso espaço esteve garantido e a nossa luta está sendo respeitada e assumida no conjunto das organizações. Esse processo é muito importante, pois temos que assumir todas as particularidades para que haja o avanço social. Saímos daqui fortalecidas, com mais energia e a certeza de que estamos no caminho certo”, disse.

Para o bispo da diocese de Santillo, no México, José Paul Vera Lopez, o encontro serviu como ponto de encontro para os movimentos demonstraram a força que tem na defesa de seus direitos.  “A união dos povos pode duplicar o debate em torno do modelo econômico que está no mundo, onde o capitalismo se apodera de tudo e não representa o pensamento dos trabalhadores.” Ele afirmou ainda que o Papa Francisco tem intensificado o diálogo com os movimentos, principalmente em defesa da mãe terra. “Temos que ampliar e diversificar essa luta e a igreja está junto com essa força conjunta”, declarou (3).

Encíclica Laudato Si

“Digamos ‘Não’ a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata, esta economia exclui, esta economia destrói a Mãe Terra”, exigiu o Papa em Santa Cruz. Em discurso a membros de organizações sociais de todo o mundo, Francisco pediu perseverança na luta por mudanças estruturais e tem relações com a Encíclica Laudato Si, que é clara em relação à necessidade de mudança do “sistema” e não apenas de padrões individuais de comportamento. É essencial reconhecer, como disse Roberto Malvezzi, um dos líderes da Comissão Pastoral da Terra CPT no Brasil, que este é o primeiro documento de um Papa a expressar uma visão sistêmica, holística.

Moema Miranda, antropóloga e diretora do Ibase, considera que “A Encíclica rompe uma tradição dualista milenar, herdada da cultura grega e reinterpretada por tantos pensadores cristãos: a lógica das duas cidades, de um mundo imerso em pecado. Esta ruptura epistemológica tem um valor inestimável. Abre as portas para um diálogo – onde reconhecendo as diferenças – podemos ser respeitosos e fraternos com as culturas tradicionais, indígenas, quilombolas e tantas outras, reconhecidas e valorizadas pelo Papa Francisco na Laudato Si!

(…) A articulação entre justiça social e ambiental é fundamental na Encíclica, explícita em diversos momentos, especialmente quando afirma que “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental” (§139). Vale lembrar que no Fórum Social Mundial de 2009, em Belém, onde mais de 150 mil ativistas, militantes e defensores dos direitos humanos e ambientais se reuniram, os povos indígenas das América afirmaram: vivemos não um somatório de crises (ambiental, financeira, social, etc.), mas uma “crise civilizatória”! (4).

A Igreja é um ator decisivo no processo político brasileiro

Propostas alternativas sistêmicas ao mundo dominado pelo capital já estão emergindo das mil flores que florescem apesar e em resistência à ordem hegemônica, pela Igreja dos pobres, apoiadas por alguns políticos comprometidos, por ONGs, militantes, ambientalistas, cientistas.

Na terceira parte de esse libro encontramos algumas de essas alternativas construídas pela Comissão Pastoral da Terra CPT, Conselho Indigenista Missionário CIMI e pela defensa da Amazônia e também do Sertão – com o caminho do Bispo Egidio Bisol (Afogados da Ingazeira PE) sucessor do Dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho, companheiro do dom Helder Câmara nos Pactos das Catacumbas.

O professor Jose de Souza Martins, autor do livro “A Política do Brasil Lúmpen e Místico” (Editora Contexto, 2011) descreve a influência da Igreja Católica na sociedade brasileira: “A Igreja Católica e as pastorais sociais são uma referência fundamental do livro. Diferente da maioria dos autores de sociologia política, que têm dificuldade para incorporar a Igreja como ator decisivo no processo político brasileiro, entendo que algumas das conquistas brasileiras no âmbito dos direitos sociais são devidas ao corajoso e decisivo empenho da Igreja Católica e de algumas igrejas protestantes a ela associadas nessas questões, como a Igreja de Confissão Luterana. O catolicismo é, no Brasil, o grande e provavelmente único guardião competente dos valores da tradição conservadora, contrapondo-os a um capitalismo corrosivo e desumanizador. Destaco em particular a concepção referencial familista e comunitária de pessoa contra a concepção contratualista e redutiva de indivíduo e todos os seus desdobramentos numa proposta pobre de sociedade. Destaco, também, a visão comunitária da vida, fundamento das nossas mais significativas utopias. E, também, da nossa crítica social e até política de uma concepção mutilada e iníqua de sociedade.

Destaco, ainda, que a Igreja foi decisiva para que a reforma agrária fosse colocada na agenda política brasileira, quando tudo dizia que não havia condições políticas para fazê-lo. As próprias esquerdas eram céticas quanto à sua viabilidade, preferindo antes a opção política pela mera extensão dos direitos trabalhistas aos trabalhadores rurais. Destaco, ainda, nela, a crítica das iniquidades de um regime fundiário que tende à exclusão perversa do homem que trabalha e que tende, mesmo, ao grande perigo da formação de enclaves territoriais. Enfim, ressalto a decisiva importância da Igreja Católica no reconhecimento da diversidade cultural e linguística das nações indígenas e do reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos de direito, com identidade própria e não como grupos adjetivos de uma sociedade cuja grande tradição tem sido apenas de espoliá-los e privá-los dos meios de referência de sua identidade e de sua sobrevivência” (5).

A profecia do Dom Erwin Kräutler e Conselho Indigenista Missionário

A publicação da encíclica do papa Francisco repercutiu no mundo inteiro. Não por acaso: é a primeira vez que um papa dedica um documento dessa importância ao tema da ecologia. Para escrever as 190 páginas de Laudato Si, o papa se consultou com cientistas, ativistas e movimentos sociais do mundo inteiro. Uma das pessoas que contribuíram é o bispo do Xingu, Dom Erwin Kräutler. Dom Erwin atua na Amazônia, com sede em Altamira (PA), na defesa de povos indígenas e comunidades locais. Sua militância social e ecológica fizeram dele alvo de ameaças de pistoleiros da região. “Descrevi ao Papa Francisco a realidade da Amazônia e as condições em que vivem os seus povos”, disse o bispo.

“Naquela inesquecível audiência do ano passado (2014), descrevi ao papa Francisco a realidade da Amazônia e as condições em que vivem os seus povos. Referi-me primeiro às nossas comunidades e lamentei que, por causa da acentuada escassez de padres, a população só tem acesso à eucaristia algumas vezes ao ano. Falei dos povos indígenas e entreguei-lhe uma mensagem do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), previamente redigida, chamando a atenção para os diversos pontos do documento. Disse a ele que os povos indígenas só sobreviverão física e culturalmente se permanecerem em suas terras, que hoje são ameaçadas pelos grandes projetos governamentais, pelas empresas mineradoras e madeireiras e pelo agronegócio. Aí o papa me revelou que estava escrevendo uma encíclica sobre a ecologia. Insisti logo que num documento dessa envergadura não poderia faltar uma clara referência à Amazônia e aos povos indígenas. O papa recomendou-me então que enviasse ao cardeal Turkson alguma contribuição minha nesse sentido o que, voltando ao Brasil, imediatamente fiz.

Ao ler agora a encíclica deparo-me com vários pontos em que é bem notório que o papa levou em conta os nossos anseios e angústias e demonstra claramente que os assumiu como suas próprias preocupações. No número 38, por exemplo, falou sobre a importância da Amazônia “para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade” e acrescentou que “quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies, ou tais áreas transformam-se em áridos desertos”.

No número 146 refere-se explicitamente aos povos indígenas dizendo que é “indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços.

Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura”, conclui Dom Erwin Kräutler (6).

As importantes manifestações do Papa tiveram escassos reflexos nas pautas nobres da grande mídia no Brasil, com exceção da Folha de São Paulo, e o objetivo de esse E-BOOK é expandir uma mensagem muito importante para ser profundidos pelas comunidades, grupos, paroquias, etc., na ótica transformadora do Papa Francisco: “Este sistema já não se consegue aguentar. Temos de mudá-lo, temos de voltar a levar a dignidade humana para o centro: que sobre esse pilar se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos”.

Aqui você encontra os artículos de análises da viagem do Papa Francisco em Equador, Bolivia, Paraguai que foram traduzidos e publicados pela Agencia Adital; muito obrigado a Pe. Ermanno Allegri, Benedito e toda a equipe da Adital.

Esse livro vai aportar a concretização da “fe revolucionaria”, seguindo os caminhos da Igreja profética de Leonidas Proaño, de Oscar Romero, de Helder Câmara, de Francisco Austregésilo de Mesquita Filho.

 AUTOR:

Cristiano Morsolin, pesquisador e trabalhador social italiano radicado na América Latina desde 2001, com experiências no Equador, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, Brasil. Autor de vários livros, colabora com a Universidade do Externado da Colômbia, Universidade do Rosário de Bogotá, Universidade Politécnica Salesiana de Quito.  Co-fundador do Observatório sobre América Latina SELVAS (Milán), especialista em análise da dívida social e da dívida externa e processos emancipatorios na América Latina, através do trabalho com a Fundação “Giustizia e Solidarieta FGS” (Roma), com o Centro Tricontinental CETRI (fundador: Francois Houtart) de Lovaina.

Blog: https://diversidadenmovimiento.wordpress.com/

 Bogotá, Sexta feira 24 de Julho 2015

 NOTAS

Leia aqui o E-book completo produzido por Adital em parceria com Cristiano Morsolin sobre a visita Papal à América Latina:

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=85891

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